sábado, 2 de março de 2013

Violência Gratuita - Michael Haneke (Fanny Games - 1997)



Qual a relação entre o entretenimento e a violência? Funny Games, filme de Michael Haneke, tenta responder esta pergunta, provocando os espectadores com situações inusitadas, quebras bruscas da estrutura narrativa e muito humor negro. O enredo é relativamente simples, dois jovens invadem uma casa de veraneio, subjuga os donos, propondo pequenos joguinhos estranhos e perniciosos. A mulher, o marido e a criança, reféns dos adolescentes, são obrigados a participar da teatralidade mórbida daquelas situações. É curioso notar que logo no inicio da projeção, durante a viagem, a família brinca e passa o tempo tentando adivinhar as composições e os compositores de músicas clássicas; na estrada eles se distraiam ouvindo a sonoridade encantadora de grandes artistas. Em seguida o bálsamo sonoro é interrompido e substituído por um rock pesado, punk e completamente disfônico, os letreiros sobem anunciando o título da obra; não será um filme familiar e os jogos terão, ao gosto do público, peculiaridades um pouco mais degradantes.

A grande virtude de Violência Gratuita é estabelecer com o espectador um jogo de adivinhações, somos levados, pela curiosidade, a tentar desvelar os motivos e justificativas daquelas atitudes ignóbeis e irracionais; o personagem interpretado por Arno Frisch, Paul, um dos jovens invasores, brinca com o público, contando várias versões dos possíveis distúrbios de personalidade que incutiam tais atitudes. Problemas familiares, pobreza e privações materiais, crise existencial ocasionada pelo tédio da modernidade, ou simplesmente as drogas são as diferentes hipóteses apresentada pelo sardônico antagonista, no final ele deixa claro que nada daquilo é importante; qual a diferença em se estabelecer justificativas, se nós, espectadores, estamos ansiosos em participar do jogo? A violência é apenas um pequeno laivo da nossa própria propensão em imaginar a tragédia e sua vindoura superação, afinal, nada é mais sedutor que se entreter com as tentativas de imitação da realidade; na segurança do lar ou de uma sala de cinema queremos apenas diversão. Observar a família vencendo os vilões sobre uma intensa atmosfera de suspense, medo e algum sangue é um deleite aos olhos de indivíduos já acostumados com a fantasia gratuita exposta pela crescente industria do entretenimento. Haneke possui total consciência desses maniqueísmos presentes na cultura de massa, ele, ao estabelecer através de Paul um diálogo direto com o público, escancara nossa leniência diante da violência exposta em vários planos e imagens. Em uma cena, Arno Frisch olha para a câmera e dá uma suave e irônica piscadela com os olhos, como se estivesse combinando conosco as regrinhas do seu jogo; a diversão dos jovens, Paul e Peter, reflete o nosso próprio gosto pelo absurdo, a prova disso é não conseguir evitar o riso em alguns planos perversos e repugnantes; no fim, somos complacentes com as mais pérfidas atitudes.

A instigação proposta pelo filme nos leva a desejar, em uma espécie de sadomasoquismo visual, planos inexistentes; no final da projeção temos a sensação que assistimos um filme com violência explícita, mas em nenhum momento as cenas sanguinárias são mostradas, tudo é apenas sugerido; quando algo radical e insano acontece apenas escutamos os ruídos. O interessante é que toda a imagem construída subjetivamente por cada expectador dá ao filme uma dimensão amedrontadora, contribuindo para o passatempo proposto; nós, de certa forma, participamos do sadismo. Paul dividi toda a diversão com seu público, no entanto, ele sempre mantém o controle do que esta sendo mostrado e feito; quando ele perde o domínio sobre as imagens, conseguimos perceber nossa insidiosa manipulação, ficando claro que o inesperado, ao acontecer, poderá ser desfeito; somos enganados o tempo inteiro, a ficção oferecida finge a realidade, contudo existe um distanciamento abissal entre os consumidores e a obra. Se nos é permitido criar ou imaginar uma nova dimensão sobre o produto ofertado, este incentivo é apenas aparente; pois a mídia e os canais de entretenimento e cultura - ao produzir filmes, programas ou outros materiais audiovisuais – têm total domínio sobre seu público; nosso relacionamento com a imagem é uma espécie de passivismo construtivista, pois nossa liberdade crítica é ilusória, afinal o que importa é se distrair e matar o tempo. Cena curiosa, que comprova a argumentação anterior, acontece quando Peter leva um tiro; quando isto acontece, Paul com uma expressão desesperada, procura o controle remoto e rebobina o filme; seu domínio sobre os espectadores não poderia ser desfeito. A película é uma paródia dos thriller de suspense, mas aqui não há o bem e nem o mal, tudo, na verdade, é um joguinho de domínio, e nós somos apenas marionetes manipuladas com desdém.

Outro aspecto relevante na obra é sua clara referência à Laranja Mecânica. Os jovens, em semelhança à gangue do clássico de Stanley Kubrick, se vestem de branco; Paul possui o mesmo humor doentio de Alex, e Peter, assim como Dim, é gorducho e bobalhão. A ultraviolence mostrada na pérola dos anos 70, anunciava um futuro depravado, em que jovens se divertiriam humilhando, espancando, estuprando e mantando seus semelhantes; com Violência Gratuita Haneke comprova que o futuro chegou, e a violência, mesmo fictícia, diverte intensamente a todos nós.

Nos minutos finais, Paul e Peter se dirigem a outra casa, o entretenimento não poderia parar; o personagem de Arno Frisch, inclusive, chega a dizer que estava com fome e neste caso precisaria recomeçar sua divertida insanidade. A violência, assim como os alimentos, torna-se uma necessidade fisiológica; nossos novos tempos são incomuns, os estímulos da cultura de massa, oriundos das originais ferramentas midiáticas, tentam, a todo custo, combater o tédio, e não há forma mais consonante com a realidade do que escancarar a soturna e lôbrega gratuidade dos atos irracionais de imoralidade e depravação.

Eu diria, para finalizar e responder a pergunta feita no início deste texto, que a violência talvez seja a forma mais radical e ilegítima encontrada pela grande mídia para entreter seus espectadores. Explorar o trágico infelizmente se tornou uma grande estratégia de sucesso.                  


FG

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