Qual a relação entre o entretenimento e a violência? Funny
Games, filme de Michael Haneke, tenta responder esta pergunta,
provocando os espectadores com situações inusitadas, quebras
bruscas da estrutura narrativa e muito humor negro. O enredo é
relativamente simples, dois jovens invadem uma casa de veraneio,
subjuga os donos, propondo pequenos joguinhos estranhos e
perniciosos. A mulher, o marido e a criança, reféns dos
adolescentes, são obrigados a participar da teatralidade mórbida daquelas
situações. É curioso notar que logo no inicio da projeção,
durante a viagem, a família brinca e passa o tempo tentando
adivinhar as composições e os compositores de músicas clássicas;
na estrada eles se distraiam ouvindo a sonoridade encantadora de
grandes artistas. Em seguida o bálsamo sonoro é interrompido e
substituído por um rock pesado, punk e completamente disfônico,
os letreiros sobem anunciando o título da obra; não será um filme
familiar e os jogos terão, ao gosto do público, peculiaridades um
pouco mais degradantes.
A grande virtude de Violência Gratuita é
estabelecer com o espectador um jogo de adivinhações, somos
levados, pela curiosidade, a tentar desvelar os motivos e
justificativas daquelas atitudes ignóbeis e irracionais; o
personagem interpretado por Arno Frisch, Paul, um dos jovens
invasores, brinca com o público, contando várias versões dos
possíveis distúrbios de personalidade que incutiam tais atitudes.
Problemas familiares, pobreza e privações materiais, crise
existencial ocasionada pelo tédio da modernidade, ou simplesmente as
drogas são as diferentes hipóteses apresentada pelo sardônico
antagonista, no final ele deixa claro que nada daquilo é importante;
qual a diferença em se estabelecer justificativas, se nós,
espectadores, estamos ansiosos em participar do jogo? A violência é
apenas um pequeno laivo da nossa própria propensão em imaginar a
tragédia e sua vindoura superação, afinal, nada é mais sedutor
que se entreter com as tentativas de imitação da realidade; na
segurança do lar ou de uma sala de cinema queremos apenas diversão.
Observar a família vencendo os vilões sobre uma intensa atmosfera
de suspense, medo e algum sangue é um deleite aos olhos de
indivíduos já acostumados com a fantasia gratuita exposta pela
crescente industria do entretenimento. Haneke possui total
consciência desses maniqueísmos presentes na cultura de massa, ele,
ao estabelecer através de Paul um diálogo direto com o público,
escancara nossa leniência diante da violência exposta em vários
planos e imagens. Em uma cena, Arno Frisch olha para a câmera e dá
uma suave e irônica piscadela com os olhos, como se estivesse
combinando conosco as regrinhas do seu jogo; a diversão dos jovens,
Paul e Peter, reflete o nosso próprio gosto pelo absurdo, a prova
disso é não conseguir evitar o riso em alguns planos perversos e
repugnantes; no fim, somos complacentes com as mais pérfidas
atitudes.
A instigação proposta pelo filme
nos leva a desejar, em uma espécie de sadomasoquismo visual, planos
inexistentes; no final da projeção temos a sensação que
assistimos um filme com violência explícita, mas em nenhum momento
as cenas sanguinárias são mostradas, tudo é apenas sugerido;
quando algo radical e insano acontece apenas escutamos os ruídos. O
interessante é que toda a imagem construída subjetivamente por cada
expectador dá ao filme uma dimensão amedrontadora, contribuindo
para o passatempo proposto; nós, de certa forma, participamos do
sadismo. Paul dividi toda a diversão com seu público, no entanto,
ele sempre mantém o controle do que esta sendo mostrado e feito;
quando ele perde o domínio sobre as imagens, conseguimos perceber
nossa insidiosa manipulação, ficando claro que o inesperado, ao
acontecer, poderá ser desfeito; somos enganados o tempo inteiro, a
ficção oferecida finge a realidade, contudo existe um
distanciamento abissal entre os consumidores e a obra. Se nos é
permitido criar ou imaginar uma nova dimensão sobre o produto ofertado, este
incentivo é apenas aparente; pois a mídia e os canais de
entretenimento e cultura - ao produzir filmes, programas ou outros materiais audiovisuais – têm total domínio sobre seu público;
nosso relacionamento com a imagem é uma espécie de passivismo
construtivista, pois nossa liberdade crítica é ilusória, afinal o
que importa é se distrair e matar o tempo. Cena curiosa, que
comprova a argumentação anterior, acontece quando Peter leva um
tiro; quando isto acontece, Paul com uma expressão desesperada,
procura o controle remoto e rebobina o filme; seu domínio sobre os
espectadores não poderia ser desfeito. A película é uma paródia
dos thriller de suspense, mas aqui não há o bem e nem o mal, tudo,
na verdade, é um joguinho de domínio, e nós somos apenas
marionetes manipuladas com desdém.
Outro aspecto relevante na obra é
sua clara referência à Laranja Mecânica. Os jovens, em semelhança
à gangue do clássico de Stanley Kubrick, se vestem de branco; Paul
possui o mesmo humor doentio de Alex, e Peter, assim como Dim, é
gorducho e bobalhão. A ultraviolence mostrada
na pérola dos anos 70, anunciava um futuro depravado, em que jovens
se divertiriam humilhando, espancando, estuprando e mantando seus
semelhantes; com Violência Gratuita Haneke
comprova que o futuro chegou, e a violência, mesmo fictícia,
diverte intensamente a todos nós.
Nos minutos finais, Paul e Peter se dirigem a outra casa, o
entretenimento não poderia parar; o personagem de Arno Frisch,
inclusive, chega a dizer que estava com fome e neste caso precisaria
recomeçar sua divertida insanidade. A violência, assim como os
alimentos, torna-se uma necessidade fisiológica; nossos novos tempos
são incomuns, os estímulos da cultura de massa, oriundos das
originais ferramentas midiáticas, tentam, a todo custo, combater o
tédio, e não há forma mais consonante com a realidade do que
escancarar a soturna e lôbrega gratuidade dos atos irracionais de
imoralidade e depravação.
Eu diria, para finalizar e responder
a pergunta feita no início deste texto, que a violência talvez seja
a forma mais radical e ilegítima encontrada pela grande mídia para
entreter seus espectadores. Explorar o trágico infelizmente se tornou uma grande estratégia de
sucesso.
FG

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