O novo filme dos irmão Taviani é uma obra de difícil degustação,
não só pela proposta formal, mas principalmente pelo tema abordado.
A película fala essencialmente sobre a liberdade e o papel da arte
em nossos processos de libertação. Os atores, detentos do presídio
de segurança máxima da Rebibbia onde toda a encenação é filmada,
podem transmitir, ao filme, uma falsa ideia de documentário, no
entanto a intenção dos diretores, ao utilizar prisioneiros reais,
não é criticar o sistema penitenciário, tampouco destrinchar os
motivos da criminalidade; em nenhum momento somos exortados a
conhecer a vida daquelas pessoas, pelo contrário, sabemos apenas a
pena, o crime, o nome, a idade e o endereço, dados objetivos que
apenas dão, aos personagens, uma mínima consistência, para que
nós, o público, tenhamos uma familiaridade com todos aqueles
indivíduos. Uma cena pode causar certa confusão na interpretação
da obra, o diretor teatral, contratado pelo presídio para encenar a
peça shakespeariana Júlio César, pede
aos detentos que se apresentem, primeiro transmitindo tristeza e
depois raiva; no início parece que o filme irá se concentrar nestas
supostas emoções complementares, comuns entre criminosos: a
tristeza por ter cometido um crime ou ter sido preso injustamente e a
raiva por estar enjaulado ou por ter perdido a possibilidade de
comprovar a verdade e se defender de possíveis iniquidades, contudo
nada disso é importante, pois, com o desenvolvimento do filme, algo
fica claro, não é o Estado, muito menos a sociedade que cerceia a
liberdade dos indivíduos; todos nós somos prisioneiros e nossa cela
se chama vida. Para nos libertar existe apenas um remédio e um
caminho, somente a arte consegue abrir os portões do nosso calabouço
interior, com ela e através dela alcançamos a plenitude.
O filme parte de uma premissa real para invadir o campo da ficção.
Como dito os atores são criminosos de verdade, o diretor teatral
também interpreta ele próprio, até os ensaios são verdadeiros, no
entanto por trás da realidade existe a criação, o improviso, a
falsidade de emoções espúrias, a imitação, Brutus, Júlio César,
Shakespeare e a arte. Durante os ensaios os atores incorporam seus
papéis, seja interpretando eles mesmos ou os personagens da peça,
tudo é muito claro e ao mesmo tempo confuso, pois a ficção
mistura-se à realidade, como se a arte encontrasse a vida,
fundindo-se a ela. A opção dos irmãos Taviani em filmar a
apresentação de teatro em cores e todos os ensaios em preto e
branco, reforça a ideia de que sem a arte não existe liberdade; uma
cena interessante é quando um dos detentos olha para um belíssimo
poster de uma ilha, a imagem, aos poucos, ganha cores e encanto, por
alguns segundos o prisioneiro esquece do cárcere, naquele momento
ele não respira ar, e nem vive uma vida, mas sim respira arte e vive
liberdade.
A peça de Shakespeare me deixou um
pouco intrigado, me fazendo pensar em uma pergunta inevitável e
talvez insidiosa: se a arte liberta, o artista não poderia
utilizá-la para manipular seus consumidores? Para explicar esta
dúvida terei de comentar superficialmente o enredo da obra
shakespeariana. Júlio César, célebre personagem da
história mundial, é assassinado após tentar dar um golpe no Estado
Romano; em pleno senado, vários companheiros de política, incluindo
seu sobrinho Brutus, o esfaqueia. Este, mesmo amando
incondicionalmente seu tio prefere matá-lo para evitar um mal maior,
para o jovem romano a vida de César poderia colocar em risco a
democracia. A princípio a população apoia os senadores, mas um
discurso inflamado e eloquente de Marco Antônio, transforma o antigo
traidor em herói; a massa manipulada por palavras fortes muda de
lado e passa a acusar Brutus pela vileza e ignominiosidade do
imperdoável assassinato do novo ídolo; uma batalha entre os lados
opostos, Marco Antônio representando o império e os senadores a
democracia, retira a vida do algoz de César, Brutus morre como
traidor. Seriamos nós, espectadores, à semelhança do povo romano,
apenas peças facilmente manipuladas pelos artistas? Tendemos mudar
de ideia conforme uma nova orientação? Melhor deixar estas
perguntas sem respostas; conduzidos ou não, a arte sempre nos
oferece alento, tranquilidade, paz e principalmente liberdade.
A qualidade das atuações, nos gera
grandes dúvidas; estamos a todo momento desconfiados, pois
interpretações sublimes, beirando a perfeição não poderiam, de
forma alguma, se originar de atores não profissionais; o empenho dos
detentos é impressionante, ao ver o filme conseguimos sentir a
satisfação daquelas pessoas, cada um parece estar amando o seu
trabalho; a arte além de libertar tem importante papel de educadora,
com ela todos se sentem iguais, e a igualdade é o primeiro passo
para a coesão social. Pensando melhor, esta película italiana
talvez seja bem mais complexa e tenha um alcance infinitamente
superior àquele que supunha; os prisioneiros, em uma cena curiosa,
ficam admirados e empolgados com a opulência da obra de Shakespeare,
eles comentam entre si que a peça “Júlio César” será encenada
durante vários séculos, em diversas línguas e lugares. Eis a dimensão
da arte, ela, ao contrário da vida, é eterna e produz, em cada
época, infindáveis significados.
É difícil escrever sobre um filme tão peculiar, não sabemos se
assistimos uma ficção camuflada de documentário, ou o inverso.
Esta suposta ambiguidade retrata uma contradição inerente a toda
atividade artística; a criação é reflexo de observações feitas
na realidade pelo artista, no entanto a obra nem sempre se prende ao
real, muitas vezes consegue superá-lo. Nossas sensações podem,
através da arte, transcender os limites da própria vida; ao
assistir um filme, ler poesias ou romances, apreciar pinturas ou
delirar com o aconchegante cintilar sonoro das obras musicais, o
sentimento de liberdade se potencializa; perante a criatividade
humana a vida não passa de uma imensa e solitária jaula; aliás, na
película um dos personagens chega a comentar que quando descobriu a
arte sua cela transformou-se em uma prisão, no entanto não é o
enclausuramento que macula a liberdade; Cosimo Rega, o detento
citado, já estava acostumado à penitenciária, vinte anos na cadeia
e a expectativa resignada de cumprir uma pena perpétua retira da
frase qualquer queixa da sua suposta situação, a prisão era sua
vida, após a fala, inclusive, ele, com um semblante tristonho, enche
uma xícara com café, faz algo perfeitamente natural a qualquer
indivíduo, pratica um ato do cotidiano, escancarando o verdadeiro
sentido da perniciosa descoberta. A arte abre nossos olhos, nos faz
ver a insignificância da vida; todos nós estamos presos, pois só
alcançamos a liberdade quando exultados pela atividade artística.
FG












