terça-feira, 12 de março de 2013

César Deve Morrer - Paolo e Vittorio Taviani (Cesare Deve Moriri - 2012)




O novo filme dos irmão Taviani é uma obra de difícil degustação, não só pela proposta formal, mas principalmente pelo tema abordado. A película fala essencialmente sobre a liberdade e o papel da arte em nossos processos de libertação. Os atores, detentos do presídio de segurança máxima da Rebibbia onde toda a encenação é filmada, podem transmitir, ao filme, uma falsa ideia de documentário, no entanto a intenção dos diretores, ao utilizar prisioneiros reais, não é criticar o sistema penitenciário, tampouco destrinchar os motivos da criminalidade; em nenhum momento somos exortados a conhecer a vida daquelas pessoas, pelo contrário, sabemos apenas a pena, o crime, o nome, a idade e o endereço, dados objetivos que apenas dão, aos personagens, uma mínima consistência, para que nós, o público, tenhamos uma familiaridade com todos aqueles indivíduos. Uma cena pode causar certa confusão na interpretação da obra, o diretor teatral, contratado pelo presídio para encenar a peça shakespeariana Júlio César, pede aos detentos que se apresentem, primeiro transmitindo tristeza e depois raiva; no início parece que o filme irá se concentrar nestas supostas emoções complementares, comuns entre criminosos: a tristeza por ter cometido um crime ou ter sido preso injustamente e a raiva por estar enjaulado ou por ter perdido a possibilidade de comprovar a verdade e se defender de possíveis iniquidades, contudo nada disso é importante, pois, com o desenvolvimento do filme, algo fica claro, não é o Estado, muito menos a sociedade que cerceia a liberdade dos indivíduos; todos nós somos prisioneiros e nossa cela se chama vida. Para nos libertar existe apenas um remédio e um caminho, somente a arte consegue abrir os portões do nosso calabouço interior, com ela e através dela alcançamos a plenitude.

O filme parte de uma premissa real para invadir o campo da ficção. Como dito os atores são criminosos de verdade, o diretor teatral também interpreta ele próprio, até os ensaios são verdadeiros, no entanto por trás da realidade existe a criação, o improviso, a falsidade de emoções espúrias, a imitação, Brutus, Júlio César, Shakespeare e a arte. Durante os ensaios os atores incorporam seus papéis, seja interpretando eles mesmos ou os personagens da peça, tudo é muito claro e ao mesmo tempo confuso, pois a ficção mistura-se à realidade, como se a arte encontrasse a vida, fundindo-se a ela. A opção dos irmãos Taviani em filmar a apresentação de teatro em cores e todos os ensaios em preto e branco, reforça a ideia de que sem a arte não existe liberdade; uma cena interessante é quando um dos detentos olha para um belíssimo poster de uma ilha, a imagem, aos poucos, ganha cores e encanto, por alguns segundos o prisioneiro esquece do cárcere, naquele momento ele não respira ar, e nem vive uma vida, mas sim respira arte e vive liberdade.

A peça de Shakespeare me deixou um pouco intrigado, me fazendo pensar em uma pergunta inevitável e talvez insidiosa: se a arte liberta, o artista não poderia utilizá-la para manipular seus consumidores? Para explicar esta dúvida terei de comentar superficialmente o enredo da obra shakespeariana. Júlio César, célebre personagem da história mundial, é assassinado após tentar dar um golpe no Estado Romano; em pleno senado, vários companheiros de política, incluindo seu sobrinho Brutus, o esfaqueia. Este, mesmo amando incondicionalmente seu tio prefere matá-lo para evitar um mal maior, para o jovem romano a vida de César poderia colocar em risco a democracia. A princípio a população apoia os senadores, mas um discurso inflamado e eloquente de Marco Antônio, transforma o antigo traidor em herói; a massa manipulada por palavras fortes muda de lado e passa a acusar Brutus pela vileza e ignominiosidade do imperdoável assassinato do novo ídolo; uma batalha entre os lados opostos, Marco Antônio representando o império e os senadores a democracia, retira a vida do algoz de César, Brutus morre como traidor. Seriamos nós, espectadores, à semelhança do povo romano, apenas peças facilmente manipuladas pelos artistas? Tendemos mudar de ideia conforme uma nova orientação? Melhor deixar estas perguntas sem respostas; conduzidos ou não, a arte sempre nos oferece alento, tranquilidade, paz e principalmente liberdade.

A qualidade das atuações, nos gera grandes dúvidas; estamos a todo momento desconfiados, pois interpretações sublimes, beirando a perfeição não poderiam, de forma alguma, se originar de atores não profissionais; o empenho dos detentos é impressionante, ao ver o filme conseguimos sentir a satisfação daquelas pessoas, cada um parece estar amando o seu trabalho; a arte além de libertar tem importante papel de educadora, com ela todos se sentem iguais, e a igualdade é o primeiro passo para a coesão social. Pensando melhor, esta película italiana talvez seja bem mais complexa e tenha um alcance infinitamente superior àquele que supunha; os prisioneiros, em uma cena curiosa, ficam admirados e empolgados com a opulência da obra de Shakespeare, eles comentam entre si que a peça “Júlio César” será encenada durante vários séculos, em diversas línguas e lugares. Eis a dimensão da arte, ela, ao contrário da vida, é eterna e produz, em cada época, infindáveis significados.

É difícil escrever sobre um filme tão peculiar, não sabemos se assistimos uma ficção camuflada de documentário, ou o inverso. Esta suposta ambiguidade retrata uma contradição inerente a toda atividade artística; a criação é reflexo de observações feitas na realidade pelo artista, no entanto a obra nem sempre se prende ao real, muitas vezes consegue superá-lo. Nossas sensações podem, através da arte, transcender os limites da própria vida; ao assistir um filme, ler poesias ou romances, apreciar pinturas ou delirar com o aconchegante cintilar sonoro das obras musicais, o sentimento de liberdade se potencializa; perante a criatividade humana a vida não passa de uma imensa e solitária jaula; aliás, na película um dos personagens chega a comentar que quando descobriu a arte sua cela transformou-se em uma prisão, no entanto não é o enclausuramento que macula a liberdade; Cosimo Rega, o detento citado, já estava acostumado à penitenciária, vinte anos na cadeia e a expectativa resignada de cumprir uma pena perpétua retira da frase qualquer queixa da sua suposta situação, a prisão era sua vida, após a fala, inclusive, ele, com um semblante tristonho, enche uma xícara com café, faz algo perfeitamente natural a qualquer indivíduo, pratica um ato do cotidiano, escancarando o verdadeiro sentido da perniciosa descoberta. A arte abre nossos olhos, nos faz ver a insignificância da vida; todos nós estamos presos, pois só alcançamos a liberdade quando exultados pela atividade artística.


FG

terça-feira, 5 de março de 2013

Top 10 - Faces Femininas


Como já havia comentado, este blog, além das críticas cinematográficas, terá muitas listas. Como março é o mês das mulheres e dia 08 será comemorado o dia internacional deste gênero genuinamente sublime, deixo aqui uma homenagens a algumas faces femininas que me enterneceram. Não é uma eleição das mais belas, e o critério está longe de ter qualquer teor lascivo, mesmo porque uma delas é apenas uma singela criança; as atrizes escolhidas de alguma forma sensibilizaram meus sentidos, seja pela atuação, delicadeza ou simplesmente pelo personagem interpretado; a beleza foi, ao lado de tantos outros critérios, uma característica relevante, mas não única, em meus processos avaliativos. Os respectivos filmes contribuíram muito na seleção, dos listados apenas GildaDança com Vampiros e Menina Má não se enquadram entre os meus favoritos; e fica a ressalva: provavelmente esqueci de algo inesquecível, vindouras lembranças serão comunicadas no espaço destinado às respostas. Bem, aguardo os comentários, espero que eles aconteçam.

01- Anna Karina em Viver a Vida (Vivre Sa Vie - Jean-Luc Godard/1962)

02 - Irène Jacob em A Fraternidade é Vermelha (Trois Couleurs: Rouge - Krzysztof Kieslowski/1994)

03 - Rita Hayworth em Gilda (idem - Charles Vidor/1946)

04 - Natacha Régnier em A Ponte das Artes (Le Pont des Arts - Eugène Green/2004)

05 - Kirsten Dunst em As Virgens Suicidas (The Virgin Suicides - Sofia Coppola/1999)

06 - Roxane Mesquida em Menina Má (À Ma Souer! - Catherine Breillat/2001)

07 - Jean Seberg em Acossado (idem - Jean-Luc Godard/1960)

08 - Nicole Kidman em De Olhos Bem Fechados (Eyes Wide Shut - Stanley Kubrick/1999)

09 - Sharon Tate em A Dança Com Vampiros (The Fearless Vampire Killers - Roman Polanski/1967)

10 - Ana Torrent em O Espírito da Colmeia (El Espíritu de la Colmena - Víctor Erice/1973)

É isto, espero que alguém goste desta lista; abraço a todos.

FG

sábado, 2 de março de 2013

Violência Gratuita - Michael Haneke (Fanny Games - 1997)



Qual a relação entre o entretenimento e a violência? Funny Games, filme de Michael Haneke, tenta responder esta pergunta, provocando os espectadores com situações inusitadas, quebras bruscas da estrutura narrativa e muito humor negro. O enredo é relativamente simples, dois jovens invadem uma casa de veraneio, subjuga os donos, propondo pequenos joguinhos estranhos e perniciosos. A mulher, o marido e a criança, reféns dos adolescentes, são obrigados a participar da teatralidade mórbida daquelas situações. É curioso notar que logo no inicio da projeção, durante a viagem, a família brinca e passa o tempo tentando adivinhar as composições e os compositores de músicas clássicas; na estrada eles se distraiam ouvindo a sonoridade encantadora de grandes artistas. Em seguida o bálsamo sonoro é interrompido e substituído por um rock pesado, punk e completamente disfônico, os letreiros sobem anunciando o título da obra; não será um filme familiar e os jogos terão, ao gosto do público, peculiaridades um pouco mais degradantes.

A grande virtude de Violência Gratuita é estabelecer com o espectador um jogo de adivinhações, somos levados, pela curiosidade, a tentar desvelar os motivos e justificativas daquelas atitudes ignóbeis e irracionais; o personagem interpretado por Arno Frisch, Paul, um dos jovens invasores, brinca com o público, contando várias versões dos possíveis distúrbios de personalidade que incutiam tais atitudes. Problemas familiares, pobreza e privações materiais, crise existencial ocasionada pelo tédio da modernidade, ou simplesmente as drogas são as diferentes hipóteses apresentada pelo sardônico antagonista, no final ele deixa claro que nada daquilo é importante; qual a diferença em se estabelecer justificativas, se nós, espectadores, estamos ansiosos em participar do jogo? A violência é apenas um pequeno laivo da nossa própria propensão em imaginar a tragédia e sua vindoura superação, afinal, nada é mais sedutor que se entreter com as tentativas de imitação da realidade; na segurança do lar ou de uma sala de cinema queremos apenas diversão. Observar a família vencendo os vilões sobre uma intensa atmosfera de suspense, medo e algum sangue é um deleite aos olhos de indivíduos já acostumados com a fantasia gratuita exposta pela crescente industria do entretenimento. Haneke possui total consciência desses maniqueísmos presentes na cultura de massa, ele, ao estabelecer através de Paul um diálogo direto com o público, escancara nossa leniência diante da violência exposta em vários planos e imagens. Em uma cena, Arno Frisch olha para a câmera e dá uma suave e irônica piscadela com os olhos, como se estivesse combinando conosco as regrinhas do seu jogo; a diversão dos jovens, Paul e Peter, reflete o nosso próprio gosto pelo absurdo, a prova disso é não conseguir evitar o riso em alguns planos perversos e repugnantes; no fim, somos complacentes com as mais pérfidas atitudes.

A instigação proposta pelo filme nos leva a desejar, em uma espécie de sadomasoquismo visual, planos inexistentes; no final da projeção temos a sensação que assistimos um filme com violência explícita, mas em nenhum momento as cenas sanguinárias são mostradas, tudo é apenas sugerido; quando algo radical e insano acontece apenas escutamos os ruídos. O interessante é que toda a imagem construída subjetivamente por cada expectador dá ao filme uma dimensão amedrontadora, contribuindo para o passatempo proposto; nós, de certa forma, participamos do sadismo. Paul dividi toda a diversão com seu público, no entanto, ele sempre mantém o controle do que esta sendo mostrado e feito; quando ele perde o domínio sobre as imagens, conseguimos perceber nossa insidiosa manipulação, ficando claro que o inesperado, ao acontecer, poderá ser desfeito; somos enganados o tempo inteiro, a ficção oferecida finge a realidade, contudo existe um distanciamento abissal entre os consumidores e a obra. Se nos é permitido criar ou imaginar uma nova dimensão sobre o produto ofertado, este incentivo é apenas aparente; pois a mídia e os canais de entretenimento e cultura - ao produzir filmes, programas ou outros materiais audiovisuais – têm total domínio sobre seu público; nosso relacionamento com a imagem é uma espécie de passivismo construtivista, pois nossa liberdade crítica é ilusória, afinal o que importa é se distrair e matar o tempo. Cena curiosa, que comprova a argumentação anterior, acontece quando Peter leva um tiro; quando isto acontece, Paul com uma expressão desesperada, procura o controle remoto e rebobina o filme; seu domínio sobre os espectadores não poderia ser desfeito. A película é uma paródia dos thriller de suspense, mas aqui não há o bem e nem o mal, tudo, na verdade, é um joguinho de domínio, e nós somos apenas marionetes manipuladas com desdém.

Outro aspecto relevante na obra é sua clara referência à Laranja Mecânica. Os jovens, em semelhança à gangue do clássico de Stanley Kubrick, se vestem de branco; Paul possui o mesmo humor doentio de Alex, e Peter, assim como Dim, é gorducho e bobalhão. A ultraviolence mostrada na pérola dos anos 70, anunciava um futuro depravado, em que jovens se divertiriam humilhando, espancando, estuprando e mantando seus semelhantes; com Violência Gratuita Haneke comprova que o futuro chegou, e a violência, mesmo fictícia, diverte intensamente a todos nós.

Nos minutos finais, Paul e Peter se dirigem a outra casa, o entretenimento não poderia parar; o personagem de Arno Frisch, inclusive, chega a dizer que estava com fome e neste caso precisaria recomeçar sua divertida insanidade. A violência, assim como os alimentos, torna-se uma necessidade fisiológica; nossos novos tempos são incomuns, os estímulos da cultura de massa, oriundos das originais ferramentas midiáticas, tentam, a todo custo, combater o tédio, e não há forma mais consonante com a realidade do que escancarar a soturna e lôbrega gratuidade dos atos irracionais de imoralidade e depravação.

Eu diria, para finalizar e responder a pergunta feita no início deste texto, que a violência talvez seja a forma mais radical e ilegítima encontrada pela grande mídia para entreter seus espectadores. Explorar o trágico infelizmente se tornou uma grande estratégia de sucesso.                  


FG

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Para compartilhar meu amor pelo cinema com amigos, colegas, conhecidos ou qualquer outra pessoa que se interesse pela sétima arte, decidi criar este novo blog. Neste espaço escreverei, semanalmente, uma crítica de alguma obra interessante, além disso com frequência postarei listas de melhores filmes, atuações, cenas e coisas afins; pois há muito tempo visito blogs e sempre adorei encontrar rankings e classificações das obras, é sempre divertido comparar nosso gosto com o dos outros. Sempre tive um desejo íntimo de construir em conjunto uma página na Web, portanto, espero adquirir, no futuro, colaboradores para este modesto empreendimento; seria ótimo dividir sensações com outras pessoas. Se um dia este singelo sonho se realizasse, além de um denso ambiente de discussão, construiria, junto aos meus hipotéticos companheiros, um local interessante, diversificado e com ótimo conteúdo. Então, se alguém manifestasse a vontade de embarcar nesta aventura comigo, meus olhos, certamente, ficariam dardejantes e iluminados por uma afável felicidade. Meu antigo blog continuará existindo, minhas experiências literárias, contos e confissões teatralizadas presentes no “oblações” serão, ao longo do tempo, atualizadas. Os textos, de ambos os blogs, obedecerá a frequência da minha inspiração e disponibilidade, por enquanto meu compromisso é apenas interno (escrevo por prazer e para exorcizar alguns fantasmas), contudo, quem sabe, após alguns meses de dedicação, eu não possa conquistar a atenção de algumas pessoas; se tivesse leitores fiéis me empenharia com mais afinco no desenvolvimento das minhas resenhas, críticas e estórias. Espero agradar a todos, tentarei, inclusive, diversificar os gêneros e épocas cinematográficas em minhas críticas, fazendo, sempre que possível, comentários sobre obras recentes do cinema.

Sejam bem-vindos.

FG